Vulcão do Macuco: a história da primeira fake news do Brasil
Em 28 de dezembro de 1896, uma obra de saneamento na Vila Macuco perfurou um bolsão de gás metano a 17 metros de profundidade. As chamas amareladas que saíram do chão por quase um mês foram batizadas pela imprensa local como o "vulcão de Santos" e atraíram mais de 8 mil visitantes em poucos dias. O episódio entrou para a história do jornalismo brasileiro como o primeiro caso documentado de desinformação midiática em larga escala.

Santos vivia, no fim do século XIX, o momento mais intenso de sua transformação urbana. A cidade era o motor econômico do país, com o porto em plena expansão e uma campanha pesada de saneamento em curso. No meio disso, em dezembro de 1896, um acidente técnico em uma rua pantanosa da Vila Macuco virou manchete em São Paulo, atraiu romarias de turistas, abasteceu bondes especiais e ainda inspirou um quadro de Benedito Calixto. Tudo isso por causa de um furo de sondagem que pegou fogo.
A história do vulcão do Macuco é a história de como uma cidade portuária do final do Império antecipou, em mais de um século, o roteiro que hoje conhecemos como notícia falsa de grande circulação.
A obra que atingiu um bolsão de metano a 17 metros
O início do episódio tem hora e endereço. Na tarde de 28 de dezembro de 1896, por volta das 13h, uma equipe da Comissão de Saneamento de Santos perfurava o solo da antiga Rua Dona Ana Carvalhais, atual Rua Almirante Tamandaré, nos fundos do número 39. A área ficava no Varjão dos Outeirinhos, uma porção pantanosa da Vila Macuco. O bairro era operário, e o nome vinha das aves galináceas, os macucos, que habitavam os antigos charcos da região. O objetivo da perfuração era prosaico: implantar a rede de esgoto que a cidade construía em ritmo acelerado para enfrentar as epidemias recorrentes na malha urbana.
Ao alcançar 17 metros de profundidade, a sonda foi recebida por uma corrente forte e gelada de ar que escapava pelo duto. Os operários suspenderam os trabalhos e marcaram o ponto.
Na manhã seguinte, 29 de dezembro, por volta das 6h, o fluxo gasoso passou a produzir vibrações e ruídos sibilantes parecidos com o apito de uma caldeira a vapor. Uma hora e meia depois, o poço passou a expelir água arroxeada misturada com lodo escuro e fumaça densa. As fagulhas geradas pelo atrito das ferramentas inflamaram o gás em pressão, e o canteiro virou cenário de labaredas amareladas de até dez metros de altura, com pedaços de lodo petrificado arremessados em volta do furo. Os operários abandonaram a obra, e o boato de que Santos tinha um vulcão em atividade já corria pela cidade.
O boato que correu Santos em poucas horas
A interpretação inicial dos próprios trabalhadores foi de uma manifestação magmática iminente. A coluna de fogo brotando do chão em pleno bairro operário deu corpo à narrativa, e a notícia se espalhou no primeiro dia entre as ruas centrais. Em algumas paróquias da cidade, sermões inflamados interpretaram as chamas como punição divina ou anúncio do fim do mundo, e algumas famílias chegaram a abandonar temporariamente o município com medo de que o fogo se propagasse pelo subsolo arenoso da região, formado historicamente pelo aterro sobre o mangue.
A maior parte da população, no entanto, converteu o alarme em fascínio. Em vez de fugir, multidões começaram a se deslocar em direção ao Macuco para ver o fenômeno. A Vila Macuco transformou-se, em questão de horas, no que se pode classificar como a primeira atração turística de massa improvisada do litoral paulista.
A primeira atração turística de massa do litoral paulista
A escala do movimento exigiu reorganização logística da cidade. A Empresa Viação Paulista, concessionária dos bondes de tração animal, desviou frotas e criou rotas diretas em direção ao bairro. O canal do estuário também ganhou serviço próprio, com catraias, botes e canoas saindo dos cais do Valongo, da Alfândega e do Mercado das Canoas, no Paquetá, em direção à bacia do Macuco. Da capital paulista e do interior, a São Paulo Railway descia a Serra do Mar lotada de turistas. No trajeto a pé até o poço, vendedores ambulantes ofereciam cerveja, pastéis, pamonha, mungunzá, limonada e bolinhos de fubá a preços inflacionados, e as queixas sobre o custo das iguarias chegaram aos jornais da época. Até 31 de dezembro de 1896, em apenas quatro dias, mais de 8 mil pessoas tinham visitado a Vila Macuco para ver o fogo brotar do chão. A queima se manteve por quase um mês, com intensidade decrescente.
Orville Derby e a desmistificação científica

O tamanho do boato exigiu intervenção do poder público estadual. Foi enviado a Santos o Dr. Orville Adelbert Derby, geólogo norte-americano radicado no Brasil e então diretor da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo. Derby analisou o poço artesiano e publicou seu veredicto científico nas edições de 30 e 31 de dezembro de 1896 do jornal O Estado de S. Paulo, com destaque de primeira página.
A explicação foi técnica e direta. A sonda da Comissão de Saneamento havia perfurado uma lente de areia porosa saturada de água e de gás metano, acumulado pela decomposição de matéria orgânica no subsolo sedimentar do estuário ao longo de séculos. Sob pressão, o gás escapou pela abertura do tubo e entrou em combustão a partir das fagulhas geradas pelo atrito das ferramentas metálicas. A chama amarelada e a fumaça escura eram resultado da oxidação incompleta do CH₄.
Derby fez também uma previsão acertada: a queima se extinguiria de forma gradual à medida que o reservatório subterrâneo se esgotasse. Confirmou-se em meados de janeiro de 1897, quando o fogo cessou por completo.
O conflito entre imprensa séria e imprensa sensacionalista
A cobertura do episódio expôs uma divisão clara entre os veículos da época. O Estado de S. Paulo e parte do Diário de Santos abraçaram a explicação científica de Derby e trataram de informar a população com base nos dados geológicos. Mas a imprensa local sensacionalista seguiu alimentando a narrativa do vulcão por semanas, com tiragens reforçadas e manchetes dramáticas. A justificativa comercial era evidente: a queima sustentava a venda de jornais e mantinha o fluxo de visitantes que beneficiava o comércio, as concessionárias de bonde e os pequenos serviços formados no entorno.
Por que o caso é lembrado como a primeira fake news brasileira
Historiadores da comunicação consideram o vulcão do Macuco um dos primeiros e mais nítidos exemplos documentados de fake news no país. A escala do fenômeno e a rede de informação que o sustentou anteciparam, em ambiente analógico, o roteiro contemporâneo de propagação de notícias falsas em larga escala.
A rede de transmissão de 1896 funcionou por três caminhos simultâneos. O sensacionalismo da imprensa diária garantiu alcance. O boca a boca das zonas portuárias deu velocidade. E os interesses financeiros locais, entre bondes especiais, catraias, comércio ambulante e venda de jornais, forneceram o combustível econômico que mantinha a narrativa em circulação. Os três elementos juntos sustentaram, por quase um mês, uma versão dos fatos que a ciência já havia desmontado no segundo dia. O esclarecimento de Derby publicado no Estadão estava disponível desde 30 de dezembro, mas o fluxo de turistas continuou intenso até meados de janeiro.
Onde ficou o vulcão e como o caso está preservado hoje
O local da perfuração fica na atual Rua Almirante Tamandaré, na altura do número 39, nos fundos. Toda a área do antigo Varjão dos Outeirinhos foi urbanizada ao longo do século XX, e o ponto exato hoje se confunde com o casario do bairro Macuco, formado historicamente pela população operária ligada ao porto e à expansão de Santos como centro econômico do Brasil no fim do século XIX.
A memória do episódio está guardada na Fundação Arquivo e Memória de Santos (FAMS), em dois fundos documentais principais: o Fundo Câmara Municipal de Santos, que reúne registros oficiais da Comissão de Saneamento, e o Fundo Costa e Silva Sobrinho, com anotações detalhadas sobre a vida cotidiana da Vila Macuco no momento do incidente. Segundo o historiador José Dionísio de Almeida, pesquisador da FAMS, o vulcão integra o conjunto de lendas urbanas da cidade que, mesmo sem base científica, exercem papel cultural relevante na identidade santista.
O episódio também ganhou registro estético importante. Benedito Calixto, um dos principais pintores brasileiros do período, retratou o evento em uma tela em pastel intitulada O vulcão do Macuco – Stos 1896, que serve como documento visual da paisagem do bairro antes do seu arruamento. Desenhos a bico-de-pena de Ulisses Veneziano e de Lauro Ribeiro da Silva, conhecido como Ribs, ilustraram a coluna de fogo e a multidão de espectadores e foram reproduzidos no Almanaque de Santos e em reportagens especiais do jornal A Tribuna ao longo do século XX.
Linha do tempo do vulcão do Macuco
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| 28/12/1896, 13h | Perfuração da Comissão de Saneamento atinge 17 metros na Rua Dona Ana Carvalhais. Sonda libera corrente de ar frio. |
| 29/12/1896, 6h | Fluxo gasoso intensifica com sibilos parecidos a uma caldeira a vapor. |
| 29/12/1896, 7h30 | Poço expele água arroxeada e lodo escuro. Atrito das ferramentas inflama o gás. Chamas amareladas de até 10m. |
| 30 e 31/12/1896 | Mais de 8 mil visitantes chegam ao Macuco. O Estado de S. Paulo publica em capa o veredicto do Dr. Orville Derby. |
| Meados de janeiro/1897 | Pressão do bolsão de metano se esgota. Chamas cessam definitivamente. |
Perguntas frequentes
O que foi o vulcão do Macuco em Santos?
Foi um evento ocorrido entre 28 de dezembro de 1896 e meados de janeiro de 1897, quando uma obra da Comissão de Saneamento de Santos perfurou um bolsão de gás metano a 17 metros de profundidade no antigo Varjão dos Outeirinhos, na Vila Macuco. O gás escapou pelo furo e entrou em ignição, criando chamas amareladas de até dez metros de altura por quase um mês. Apesar do nome, não houve atividade vulcânica real.
Por que o caso é considerado a primeira fake news do Brasil?
Historiadores da comunicação apontam o episódio como um dos primeiros casos documentados de desinformação em larga escala no país. Mesmo após o geólogo Orville Derby publicar a explicação científica no Estado de S. Paulo em 30 de dezembro de 1896, parte da imprensa local seguiu alimentando a narrativa do “vulcão” para sustentar as vendas de jornal e o fluxo turístico que beneficiava o comércio e os transportes da cidade.
Quem foi Orville Derby?
Orville Adelbert Derby foi um geólogo norte-americano radicado no Brasil e diretor da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo na época do evento. Ele analisou o poço, identificou que se tratava de um bolsão de gás metano em areia porosa saturada de água, e previu corretamente que as chamas se extinguiriam com o esgotamento do reservatório, o que se confirmou em meados de janeiro de 1897.
Onde fica o local do vulcão do Macuco?
Na atual Rua Almirante Tamandaré, na altura do número 39, nos fundos. A via era originalmente chamada Rua Dona Ana Carvalhais e fica no Varjão dos Outeirinhos, no bairro Macuco, em Santos. A área foi urbanizada ao longo do século XX e o ponto exato hoje se confunde com o casario do bairro.
Quantas pessoas visitaram o vulcão do Macuco?
Estima-se que mais de 8 mil pessoas visitaram o local até 31 de dezembro de 1896, apenas quatro dias depois do início do fenômeno. Ao longo das quase quatro semanas em que as chamas se mantiveram, o número total de visitantes foi significativamente maior, contando moradores de Santos, da capital paulista e do interior do estado.
Onde a memória do vulcão do Macuco está preservada?
Os principais registros estão na Fundação Arquivo e Memória de Santos (FAMS), nos fundos documentais Câmara Municipal de Santos e Costa e Silva Sobrinho. O pintor Benedito Calixto retratou o evento em uma tela em pastel chamada O vulcão do Macuco – Stos 1896, e desenhos a bico-de-pena de Ulisses Veneziano e Lauro Ribeiro da Silva (Ribs) também registraram a cena, sendo reproduzidos no Almanaque de Santos e em edições especiais do jornal A Tribuna.
Guilherme Carvalho
Fundador do Guia Amo Santos. Cobre a cidade desde 2015, do Instagram ao portal.










